Café e Rondônia – a riqueza de um povo
O hábito de tomar café como
bebida prazerosa em caráter doméstico ou em recintos coletivos se popularizou a
partir de 1450. Ele era muito comum entre os filósofos que, ao tomá-lo,
permaneciam acordados para a prática de exercícios espirituais. Poucos anos
depois, a Turquia foi responsável em difundir o “hábito do café”,
transformando-o em ritual de sociabilidade. O país foi palco do primeiro café
do mundo – o Kiva Han – por volta de 1475. Desde então, tomar café passou a ser
“um rito” que se propagou mundo afora. Em 1574, os cafés do Cairo e de Meca
eram locais procurados, sobretudo, por artistas e poetas.
Origem
Os Etíopes, alimentavam-se de sua
polpa doce, macerada ou a misturavam em banha nas refeições. Suas folhas também
eram mastigadas ou utilizadas no preparo de chá. Produziam também um suco
fermentado que se transformava em bebida alcoólica.
Os árabes dominaram rapidamente a
técnica de plantio e preparação do café. Registros históricos de 575 d.C
indicam o Iêmen (atual Sudoeste da Ásia) como a primeira região a receber as
sementes. Seus habitantes faziam infusão com o café e cerejas fervidas em água,
geralmente, para fins medicinais. Naquela altura, monges começavam a utilizar o
café como bebida excitante para ajudá-los nas rezas e vigílias noturnas.
O processo de torrefação foi
outro passo importante para a popularização do café no mundo, mas só foi
desenvolvido no Séc. XIV quando a bebida adquiriu forma e gosto como conhecemos
hoje. A etapa seguinte foi a produção comercial no Iêmen. O país
manteve o monopólio de sua comercialização por um bom tempo. O crescente
interesse pela bebida permitiu sua “globalização” e facilitou a intervenção
cultural tanto nas formas de consumo quanto nas técnicas de plantio.
Expansão pelo Mundo
- Iêmen: O cultivo comercial inicial e o
preparo dos grãos torrados começaram nos séculos XIV e XV na Península
Arábica, especificamente no Iêmen.
- Europa e Holanda: No século XVII, os
holandeses conseguiram retirar mudas da região de Mocha e cultivá-las na
Europa.
- Chegada ao Brasil: O café chegou ao Brasil
em 1727, trazido da Guiana Francesa por Francisco de Melo Palheta,
adaptando-se perfeitamente ao clima do país
Tipos de café
Podemos levantar essa tipologia sob
o prisma em 3 abordagens: pelas espécies de grãos, pelas categorias de
qualidade comercializadas ou pelas bebidas tradicionais servidas na xícara.
1. Espécies de Grãos (A Base
de Tudo)
Embora existam mais de 120
espécies de café no mundo, apenas duas dominam o mercado global:
- Café Arábica (Coffea arabica):
Representa a maior parte da produção mundial. É cultivado em altitudes
mais elevadas e entrega uma bebida mais suave, aromática, doce e com
acidez agradável. Possui menos cafeína e é a base dos cafés finos e
especiais. Algumas de suas variedades famosas são o Bourbon, Catuaí
e Mundo Novo.
- Café Robusta ou Conilon (Coffea canephora):
É uma planta muito mais resistente a pragas e ao calor. Produz um café mais
encorpado, com amargor marcante e quase o dobro de cafeína do arábica.
É muito utilizado na produção de café solúvel e em misturas (blends).
2.
Categorias de Qualidade (O que você encontra no mercado)
No Brasil, a Associação Brasileira da
Indústria de Café (ABIC) e a Metodologia SCA classificam o café comercializado
por níveis de pureza e sabor:
|
Categoria |
Tipo
de Grão |
Perfil
de Sabor |
|
Tradicional/
Extraforte |
Geralmente
um blend
com bastante
Robusta/Conilon. |
Sabor
muito forte, amargo e com torra muito
escura para uniformizar os grãos. |
|
Superior |
Arábica
selecionado ou blends
de melhor qualidade. |
Sabor
mais equilibrado, suave, com notas
sutis de chocolate ou amêndoas. |
|
Gourmet |
100%
Arábica de alta qualidade. |
Excelente
aroma, acidez equilibrada e doçura
natural mais perceptível. |
|
Especial |
100%
Arábica rastreável (com
pontuação SCA acima de 80). |
Bebida
complexa, com notas florais, frutadas
ou exóticas. Sem defeitos. |
3. Tipos de Bebidas (Como é
servido)
Se a sua dúvida for sobre as
receitas clássicas das cafeterias, as principais opções são:
- Espresso: Café puro e altamente concentrado,
extraído sob alta pressão. É a base para a maioria das outras bebidas.
- Caffè Latte (ou Café com Leite): Uma dose de
espresso combinada com uma grande quantidade de leite vaporizado e uma
fina camada de espuma.
- Cappuccino: Combinação italiana clássica em
partes iguais de café espresso, leite vaporizado e espuma de leite densa.
- Macchiato: Um café espresso
"manchado" apenas com uma colherada de espuma de leite por cima.
- Mocha (ou Mocaccino): Uma bebida mais
adocicada que leva calda de chocolate no fundo, espresso e leite
vaporizado.
- Americano: O espresso tradicional diluído em
água quente, ideal para quem prefere uma bebida mais suave e menos densa.
Os dados oficiais do USDA
(Departamento de Agricultura dos EUA) apontam o Brasil como o líder
absoluto, produzindo sozinho cerca de 35% do total mundial.
Juntos, os 5 maiores produtores
concentram quase 75% de todo o café do planeta.
Os 5 Maiores Países Produtores
de Café
- 1º Brasil - (~63 milhões de
sacas): Lidera com folga o mercado global e é o maior produtor de café Arábica,
além de ter forte produção de Conilon (Robusta).
- 2º Vietnã - (~31 milhões de
sacas): Segunda maior potência global e o rei indiscutível do café
Robusta. Sua produção abastece amplamente a indústria de cafés
solúveis.
- 3º Colômbia -
(~13,5 milhões de sacas): Famosa mundialmente por produzir exclusivamente
café Arábica de alta qualidade, cultivado em regiões montanhosas e
colhido manualmente.
- 4º Indonésia -
(~12 milhões de sacas): Produz majoritariamente a variedade Robusta,
mas também é reconhecida por seus arábicas encorpados e exóticos
originados em suas diversas ilhas.
- 5º Etiópia - (~11,5 milhões de
sacas): O berço histórico do café. Produz 100% Arábica de perfil
altamente complexo, floral e frutado.
As duas Espécies que dominam o
Mercado Mundial
Como vimos anteriormente, o
mercado é inteiramente dominado por duas espécies do gênero Coffea,
dividindo-se da seguinte forma:
- Café Arábica (Coffea arabica):
Representa cerca de 60% da produção global. É valorizado pelo
mercado de cafés finos, gourmet e especiais por sua doçura natural, acidez
equilibrada e grande complexidade de aromas.
- Café Robusta / Conilon (Coffea canephora):
Responde por cerca de 40% do mercado mundial. É uma planta mais
resistente a pragas e ao calor, que resulta em grãos com o dobro de
cafeína, sabor mais encorpado, denso e amargo.
Produção por Espécie no Brasil
O Brasil se diferencia das demais
potências agrícolas por ser o único grande produtor a manter altíssima
competitividade em ambos os cultivos:
- Café Arábica (~67% da produção): É a
variedade dominante no país, com expectativa de colheita girando em torno
de 44,4 a 51,8 milhões de sacas. Grande parte do cultivo está
concentrado em regiões de maior altitude e clima ameno no Sudeste.
- Café Robusta/Conilon (~33% da produção):
Apresenta forte evolução técnica e responde por cerca de 21,6 a 25,4
milhões de sacas. É produzido em faixas mais quentes e litorâneas ou
na região Norte.
Os cinco Primeiros Estados
Produtores
A produção nacional é altamente
concentrada, com os três primeiros estados da lista respondendo por mais de 80%
do café colhido no país.
|
Posição |
Estado |
Características da Produção |
|
1º |
Minas Gerais |
Líder absoluto,
responsável por cerca de 50% da produção nacional. Seu foco é quase
100% voltado para o café Arábica, destacando-se regiões como o Sul de
Minas, Cerrado Mineiro e Matas de Minas. |
|
2º |
Espírito Santo |
O maior produtor de café
Conilon (Robusta) do Brasil, embora também venha crescendo na produção de
Arábicas finos em suas regiões montanhosas. |
|
3º |
São Paulo |
Produção tradicional e focada
de forma exclusiva no café Arábica, com forte destaque para as regiões
da Alta Mogiana e de Franca. |
|
4º |
Bahia |
Apresenta alta produtividade e
um perfil misto: produz Arábica de altíssima qualidade (na Chapada
Diamantina) e Conilon irrigado no extremo sul do estado. |
|
5º |
Rondônia |
O principal polo produtor de
café da Região Norte, com foco total no Robustas Amazônicos (cafés da
espécie canéfora com manejo sustentável e alta qualidade). |
Na produção nacional de cafés da
espécie canéfora (Robusta e Conilon), o Espírito Santo e Rondônia são
as duas maiores potências do Brasil.
De acordo com os dados oficiais
consolidados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), as projeções
de colheita desenham o seguinte cenário numérico:
1º Espírito Santo (O Líder
Nacional)
O estado capixaba é o maior
produtor de Conilon do país, concentrando quase 70% de toda a produção
nacional dessa variedade.
- Volume estimado: Entre 14,8 e 14,9
milhões de sacas de 60 kg.
- Produtividade média: Cerca de 47,9 sacas
por hectare.
- Destaque: Embora o número oficial da Conab
aponte um volume alto, cooperativas locais como a Cooabriel relatam que o
clima quente provocou quebras localizadas na colheita final em algumas
fazendas do norte do estado.
2º Rondônia (O Vice-Líder e
Destaque em Produtividade)
Rondônia cultiva exclusivamente
a variedade Robusta/Conilon (com grande foco nos chamados "Robustas
Amazônicos" de alta qualidade). O estado consolida-se como o segundo maior
produtor da espécie e o quinto maior produtor de café no ranking geral.
- Volume estimado: Cerca de 2,7 milhões de
sacas de 60 kg (representando um crescimento expressivo de mais de 18%
em relação ao ciclo anterior).
- Produtividade média: Atingiu a marca
histórica de 63,6 sacas por hectare, consolidando a maior
produtividade de café por área do Brasil.
- Destaque: Esse desempenho recorde ocorre
porque quase todas as lavouras rondonienses utilizam tecnologia avançada
de irrigação por gotejamento, protegendo o cafezal das variações extremas
de seca e calor.
Resumo da disputa
Robusta/Conilon:
- Espírito Santo: ~14,8 milhões de sacas ☕
- Rondônia: ~2,7 milhões de sacas ☕
Qual a área em hectares utilizada
para a cultura em RO e ES
- Espírito Santo (ES): Detém a maior área
plantada de café conilon do país, cobrindo cerca de 286,7 mil hectares.
Desse total, cerca de 258,2 mil hectares estão em produção efetiva, e o
restante em fase de formação (novas lavouras que ainda vão começar a dar
frutos).
- Rondônia (RO): Apresenta uma área muito mais compacta e otimizada, totalizando aproximadamente 47,8 mil hectares cultivados.
Comparação Direta: Área vs. Produtividade
Embora o Espírito Santo utilize
uma área quase 6 vezes maior que a de Rondônia, o estado nortista compensa a
menor extensão territorial com o uso intensivo de irrigação por gotejamento e
técnicas de clonagem. Isso permite que Rondônia produza mais sacas por espaço
de terra (maior produtividade por hectare do país).
|
Estado |
Área Total Cultivada |
Área em Produção Efetiva |
Foco da Cultura |
|
Espírito Santo |
~286.700 hectares |
~258.200 hectares |
Conilon Tradicional e Finos |
|
Rondônia |
~47.800 hectares |
~42.400 hectares |
Robustas Amazônicos |
Primeiros exemplares em cada
estado
Espírito Santo (1815 e 1912)
- O café em geral (Arábica): Os primeiros pés
de café chegaram ao Espírito Santo por volta de 1815, trazidos do Rio de
Janeiro e plantados inicialmente na região de Santa Leopoldina.
- A variedade Conilon (Robusta): As primeiras
mudas e sementes específicas de café Conilon (Coffea canephora)
foram introduzidas no estado em 1912. O plantio começou a ganhar força
comercial no município de Cachoeira de Itapemirim e expandiu-se
massivamente a partir da década de 1960, após uma grande crise de
erradicação das lavouras de Arábica.
Rondônia (1967 e década de
1970)
- O pioneirismo (Arábica): Os primeiros
exemplares de café foram plantados em solo rondoniense em 1967, no
seringal que daria origem ao município de Cacoal. O pioneiro Clodoaldo
Nunes de Almeida trouxe um saco de sementes da variedade Arábica de Mato
Grosso e colheu a primeira safra em 1969.
- A chegada do Robusta: Na década de 1970, com
os projetos oficiais de colonização do Governo Federal, migrantes vindos
do próprio Espírito Santo, Paraná e Minas Gerais trouxeram as primeiras
sementes de Canéfora (Conilon/Robusta). Como o Arábica sofria com o clima
quente e de baixa altitude, a variedade robusta se adaptou perfeitamente,
tornando-se a base dos "Robustas Amazônicos" de hoje.
Ambiente
amazônico no bioma rondoniense
·
Rios Voadores e Clima: A imensa
umidade regulada pela floresta e as chuvas constantes criam um microclima ideal
de baixa altitude e calor contínuo. Isso faz com que a planta se desenvolva com
vigor máximo, acelerando o metabolismo e resultando em safras
altamente produtivas.
·
Solo e Nutrição: O solo
amazônico, aliado ao manejo tecnológico e sustentável (como a adubação
precisa), ajuda a planta a sintetizar açúcares e ácidos orgânicos complexos.
·
O verdadeiro impacto no sabor: Em vez de
aumentar a cafeína (que traria mais amargor), esse terroir amazônico — combinado com a colheita seleta de grãos maduros —
ajuda a reduzir a adstringência e o amargor tradicional do Robusta, fazendo brotar notas raras de chocolate, especiarias e frutas.
Grãos finos premiados
internacionalmente
A transformação dos primeiros
grãos trazidos na década de 1970 em Robustas Amazônicos finos — hoje
celebrados no topo da cafeicultura mundial — é uma das jornadas mais
impressionantes do agronegócio moderno. O grão canéfora, historicamente
rejeitado por especialistas e usado apenas para baratear mesclas industriais,
passou por uma revolução amparada em três pilares principais:
1. O Casamento Genético Ideal
(Anos 1990)
Nos anos 1970, os cafezais
rondonienses eram formados por sementes mistas de Conilon e Arábica,
que sofriam com a ferrugem e o clima instável. Na década de 1990, a Embrapa
Rondônia, em parceria com institutos de pesquisa, introduziu materiais
genéticos de plantas 100% Robusta, vindas do Instituto Agronômico de
Campinas (IAC).
O cruzamento natural dessas
variedades ao longo de 30 anos no solo da Amazônia criou um híbrido
exclusivo de Canéfora, adaptado ao calor e naturalmente resistente, unindo
o corpo do Robusta à doçura e rusticidade locais.
2. A Revolução do Manejo e os
"Cafés Clonais"
A grande virada de qualidade
aconteceu quando os agricultores abandonaram o plantio por sementes
tradicionais e adotaram a cafeicultura clonal.
- Clonagem de plantas de elite: Selecionam-se
as plantas mais produtivas e resistentes para gerar mudas idênticas.
- Pós-colheita cirúrgica: Antigamente, os
grãos eram colhidos misturando frutos verdes e maduros. Os produtores
aprenderam a colher apenas os grãos em estágio "cereja"
(perfeitamente maduros), investindo em terreiros suspensos e processos de
fermentação induzida.
- Mudança Sensorial: O amargor excessivo deu
lugar a uma diversidade aromática rica em notas de chocolate, mel,
castanhas, especiarias e frutas tropicais.
3. O Batismo e a Consagração
Internacional
Em 2016, a Embrapa cunhou
oficialmente o termo "Robusta Amazônico". A partir dali o
mercado começou a olhar para Rondônia não como fornecedor de café barato, mas
como origem de uma joia gastronômica.
O reconhecimento internacional
consolidou-se através de feitos históricos:
- Denominação de Origem (D.O.) Matas de Rondônia:
Tornou-se a primeira região de cafés canéforas sustentáveis do mundo
a receber esse selo de Indicação Geográfica. O selo comprova que aquele
café carrega o terroir único e a preservação da floresta viva.
- Domínio em Concursos Culturais: Marcas
rondonienses passaram a colecionar vitórias na Semana Internacional do
Café (SIC). Produtoras locais ganharam o topo de concursos de
prestígio como o Florada Premiada, atingindo notas de excelência
acima de 90 pontos.
- A Nota Máxima (Tribos): Em uma consagração
absoluta da cafeicultura indígena, o produtor Rafael Suruí, das Matas de
Rondônia, alcançou a nota histórica perfeita de 100 pontos com um
café cultivado de forma 100% sustentável na floresta, atraindo olhares de
especialistas globais.
08 de setembro de 2026.
Por Edson Silva
Fontes
https://www.abic.com.br/tudo-de-cafe/origem-do-cafe/
USDA
(Departamento de Agricultura dos EUA)
Companhia Nacional de Abastecimento (Conab)
Visão Geral criada por IA


Nenhum comentário:
Postar um comentário