Mestre em Ciências da Saúde, UnB; Auditor ISO 14.000; Auditor CONAMA 306; Pesquisador Saúde Pública

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Desde muito cedo despertei o interesse para entender o sentido de “Gigante pela própria natureza” inscrito em nosso belo Hino Nacional Brasileiro. No meu pequeno mundo isso tinha formato de um sonho. Sempre acreditei que o trabalho produziria um Futuro que espelha essa grandeza. Entretanto, não poderíamos esperar “Deitado eternamente em berço esplendido”. Então, me debrucei sobre os livros e outros informes. A história da expansão territorial do Brasil ainda tem sido pouco pesquisada por nossa historiografia, apesar da importância estratégica e atual que reveste a questão. O potencial dos seis Biomas do Brasil nos credencia a produzir alimento para parte significativa dos 195 países do globo. Certo que temos problemas maiúsculos na seara da saúde de nosso povo, saúde primária, saúde regionais, saúde provenientes de epidemias e pandemia novo coronavírus. Nada que planejamentos estratégicos, planos de governo e planos de estado, com boa vontade e união de governantes não possam resolver.

terça-feira, 29 de setembro de 2026

A natureza dos tornados, Brasil é segundo em áreas propensas ao fenômeno.

86 tornados até agosto de 2026, El Niño começa a ganhar força. O Brasil não está preparado.

O El Niño em 2026 ganhou força de forma extremamente rápida e já está oficialmente classificado pelas agências meteorológicas como um "Super El Niño". O fenômeno superou recordes históricos de intensidade antes mesmo de atingir o período estimado para o seu pico físico. Esses eventos extremos, de que forma afetarão a vida do brasileiro? Como são tratadas as políticas públicas no Brasil para eventos extremos?

Tornado - Coluna de ar que gira em alta velocidade e toca o solo, formando um funil que se estende de uma nuvem de tempestade até a superfície da Terra.

O tornado é mais perigoso em termos de velocidade de ventos e destruição pontual, mas o furacão causa danos em uma escala muito maior. 

Características Principais

  • Ventos Fortes: Podem passar de 180 km/h e chegar a mais de 480 km/h nos casos mais extremos.
  • Contato com o Solo: O fenômeno só recebe o nome de tornado quando a ponta do funil toca o chão.
  • Duração Curta: Costuma durar de poucos minutos a algumas horas, afetando uma faixa estreita de terra.
  • Poder de Destruição: É um dos fenômenos atmosféricos mais violentos da natureza, capaz de destruir construções e arremessar objetos pesados.

O El Nino, La Niña e os Tornados

Enquanto o aquecimento das águas do Oceano Pacífico (efeito El Nino), potencializa e aumenta o risco de tornados no Sul do Brasil, ele tende a reduzir e reprimir a frequência de tornados na região central dos Estados Unidos.

Sob o efeito da La Niña (resfriamento do Pacífico), os Estados Unidos sofrem com surtos históricos e devastadores de tornados no centro e leste do país (como ocorreu nos anos de 1974 e 2011). Já o Sul do Brasil entra em períodos de seca, diminuindo drasticamente a quantidade de tempestades severas e a formação de tornados.

Países que registram o evento tornado

Os Estados Unidos são o país com o maior número de registros e a maior intensidade de tornados do mundo, seguidos pelo Brasil, que ocupa a segunda posição global em áreas propensas à formação desse fenômeno. Abaixo estão os principais países e regiões afetados por tornados no planeta:

Principais Países e Regiões com Tornados

  • Estados Unidos: É o líder absoluto, registrando mais de 1.200 tornados por ano. A área mais afetada é o famoso Tornado Alley, nas planícies centrais do país.
  • Brasil: Considerado o segundo país mais propenso do mundo. Os fenômenos se concentram no chamado "Corredor de Tornados da América do Sul", afetando principalmente os estados do Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina, além de partes de São Paulo.
  • Canadá: Registra uma quantidade significativa de tornados anualmente, logo atrás dos EUA na América do Norte.
  • Outros países da América do Sul: Além do Brasil, o corredor sul-americano abrange áreas da Argentina, Uruguai e Paraguai.
  • Ásia: Bangladesh e o Paquistão sofrem com tornados devastadores. O leste da China e o Japão também registram o fenômeno com frequência.

Os Estados Unidos são o país com o maior histórico de destruição por tornados no mundo. O país possui registros meteorológicos oficiais detalhados pela NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration) desde o século XIX.

O epicentro desses eventos é o chamado Tornado Alley (Corredor de Tornados) — que engloba estados como Texas, Oklahoma, Kansas e Nebraska —, além do Dixie Alley, no sudeste americano (estados como Mississippi, Alabama e Georgia), conhecido por gerar os tornados mais letais devido à alta densidade populacional. Abaixo estão os tornados mais graves, as cidades mais afetadas e o histórico de óbitos nos EUA:

Os Tornados Mais Letais da História dos EUA

Posição

Nome / Evento Histórico

Data

Estados Afetados

Óbitos Registrados

1º

O Tornado Tri-Estadual (Tri-State Tornado)

18/03/1925

Missouri, Illinois e Indiana

695 mortes

2º

O Grande Tornado de Natchez

06/05/1840

Louisiana e Mississippi

317 mortes

3º

O Grande Tornado de St. Louis

27/05/1896

Missouri e Illinois

255 mortes

4º

Tornado de Tupelo

05/04/1936

Mississippi

216 mortes

5º

Tornado de Gainesville

06/04/1936

Georgia

203 mortes

Detalhes dos Casos Mais Devastadores

  • O Tri-State Tornado (1925) — O Pior da História: É o recordista absoluto em letalidade, duração e velocidade nos EUA. Ele percorreu uma distância absurda de 352 quilômetros ao longo de 3 horas e meia com a intensidade máxima de um F5. A cidade de Murphysboro (Illinois) foi praticamente varrida do mapa, registrando sozinha 234 mortes, incluindo 28 estudantes após o desabamento de duas escolas.
  • O Surto de Tupelo-Gainesville (1936): Em um intervalo de apenas 24 horas, duas tempestades massivas atingiram áreas comerciais e residenciais. Em Gainesville, o tornado atingiu a fábrica têxtil Cooper Pants Factory, colapsando o prédio e matando 70 funcionários. Esse continua sendo o maior número de mortes causadas por um tornado em um único edifício na história do país.
  • O Surto de Joplin (2011) — A Tragédia Moderna: Embora o avanço da tecnologia e dos radares meteorológicos tenha reduzido drasticamente o número de mortes nas últimas décadas, o tornado de Joplin (Missouri) em 22 de maio de 2011 provou a força da natureza. Classificado como um EF5 (Escala Fujita Melhorada), ele atingiu diretamente o centro da cidade, destruindo um hospital, escolas e bairros inteiros, deixando 161 mortos e mais de 1.000 feridos.

Surtos Históricos (Múltiplos Tornados Simultâneos)

Além de tornados isolados, os EUA sofrem com ondas massivas geradas por frentes frias colossais. O recorde atual pertence ao Super Outbreak de 2011, que gerou o impressionante número de 367 tornados confirmados em apenas 4 dias no final de abril, matando 324 pessoas ao longo do país

Como os norte-americanos se protegem dos tornados

Por meio de uma combinação de tecnologia de monitoramento rápido, abrigos estruturais específicos e protocolos de segurança rigidamente ensinados desde a infância. A resposta rápida baseia-se na diferenciação crítica entre dois níveis de avisos emitidos pelo National Weather Service (NWS).

Abrigos Residenciais e Estruturas Seguras

Dentro de casa, a regra de ouro do NWS é o lema "Get In, Go Down, Cover Up" (Entre, Desça, Proteja-se):

Localização na Casa

Nível de Proteção

O que os moradores fazem

Bunkers / Storm Cellars

Máximo

Abrigos subterrâneos de concreto ou aço construídos no jardim ou abaixo da garagem, capazes de resistir a ventos de até 400 km/h.

Porão (Basement)

Alto

O subsolo da casa é a opção padrão mais segura para se proteger do desabamento da estrutura superior de madeira.

Cômodo Interno (Sem porão)

Médio

Moradores vão para o banheiro, closet ou corredor mais central no térreo, garantindo o maior número de paredes entre eles e o vento externo.

Por que as casas americanas continuam sendo construídas de madeira em regiões com tantos tornados?

A permanência das casas de madeira em regiões com alta incidência de tornados nos Estados Unidos deve-se principalmente à relação de custo-benefício econômico, à matemática das probabilidades de impacto e a uma estratégia de engenharia que prioriza proteger vidas (com abrigos) em vez de proteger a estrutura do imóvel.

A Física de um Tornado vs. Alvenaria

Muitas pessoas acreditam que casas de tijolo ou concreto resistiriam perfeitamente a um tornado, mas isso é um mito para tempestades severas.

  • Ventos Extremos: Tornados de categorias mais altas (EF4 ou EF5) geram ventos que passam facilmente dos 300 km/h. Ventos dessa magnitude transformam telhados em "velas de barco", arrancando-os. Sem o telhado, as paredes de tijolo perdem a amarração estrutural e desabam facilmente.
  • Projéteis Mortais: O vento arremessa carros, árvores e pedaços de outras estruturas. Se uma parede de concreto for atingida por um objeto pesado a 300 km/h, ela se romperá de qualquer forma, gerando escombros muito mais pesados e letais para quem está dentro.

Muitas legislações locais em áreas de risco exigem que as novas construções possuam bunkers subterrâneos ou cômodos centrais blindados altamente reforçados. Assim, mesmo que a casa de madeira seja completamente varrida pelo vento, a família que estava abrigada no bunker sairá ilesa.

https://www.instagram.com/reel/DQ-ILVJDC21/

Brasil

Aqui o chamado "corredor dos tornados" abrange principalmente os estados da Região Sul (Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná). Ao contrário dos Estados Unidos, o Brasil não possui uma política pública específica, integrada ou focada exclusivamente na prevenção de tornados.

O histórico de tornados no corredor do Paraná mostra que, embora os registros oficiais tenham se tornado mais precisos nas últimas décadas graças à tecnologia, o estado convive com esses fenômenos destrutivos há gerações. Abaixo estão os eventos mais marcantes, as cidades mais afetadas e os registros de óbitos ao longo do tempo:

Os Tornados Mais Graves e Letais no Paraná

Ano

Cidades Mais Afetadas

Intensidade / Impacto

Óbitos Registrados

1959

Palmas (região da Fazenda Fortaleza, divisa PR/SC)

Catastrófico (Ventos >200 km/h)

35 mortes no Paraná (Mais de 90 no total do surto regional)

2025

Rio Bonito do Iguaçu, Porto Barreiro, Laranjeiras do Sul, Guarapuava

EF3 a F4 (90% de Rio Bonito do Iguaçu foi destruída)

7 mortes (6 em Rio Bonito do Iguaçu e 1 em Guarapuava)

2018

Itaperuçu (Região Metropolitana de Curitiba)

F2 (Destruiu centenas de casas e o hospital local)

2 mortes

2015

Francisco Beltrão (Bairro Marmeleiro)

F2 (Mais de 70 feridos e dezenas de casas totalmente destruídas)

0 mortes (Apenas feridos graves)

2026

Espigão Alto do Iguaçu, Piraí do Sul

F1 a F2 (Surtos múltiplos que destruíram escolas e plantações em junho/julho)

0 mortes (Alertas rápidos da Defesa Civil)

Detalhes dos Grandes Marcos Históricos

  • A Tragédia de 1959 (O Mais Letal do Brasil): Ocorreu entre 13 e 14 de agosto de 1959. Um severo surto de tornados atingiu o Sul do país. Em Palmas (PR), o tornado arrancou pinheiros gigantes pela raiz e varreu construções de madeira, deixando 35 mortos. Na época, pela falta de radares, o desastre foi noticiado apenas como um "forte vendaval" ou "redemoinho", tendo sua real natureza confirmada por estudos décadas depois.
  • O Desastre de Novembro de 2025: Considerado o tornado mais destrutivo da história recente do Paraná. Uma supercélula gerou múltiplos tornados que cortaram o interior. A cidade de Rio Bonito do Iguaçu sofreu o pior impacto: ventos de até 250 km/h e diâmetro de funil de quase 1 km varreram o município, destruindo 90% das edificações. O evento causou 7 mortes no estado e mais de 750 feridos.
  • O Surto de Junho/Julho de 2026: O estado registrou uma sequência impressionante de 6 tornados confirmados em um intervalo de três dias. Cidades dos Campos Gerais e Centro-Sul sofreram danos em escolas e produções agrícolas de eucalipto e soja, mas a tecnologia de radar do Simepar permitiu evacuações a tempo, evitando mortes.

Principais Zonas de Risco no Estado

De acordo com levantamentos meteorológicos do Simepar e mapeamentos de satélite, o corredor corta o Paraná unindo cidades com forte incidência de supercélulas de tempestades:

  • Região Oeste e Sudoeste: Cidades como Francisco Alves, Mercedes, Foz do Iguaçu e Francisco Beltrão estão na principal rota de entrada da umidade vinda do Paraguai.
  • Região Centro-Sul: Áreas como Rio Bonito do Iguaçu, Espigão Alto do Iguaçu, Laranjeiras do Sul, Guarapuava e Turvo registram vários episódios graves devido ao relevo e choques térmicos frequentes.
  • Campos Gerais: Cidades como Piraí do Sul também entraram fortemente no mapa de risco após severas ocorrências registradas em anos recentes.

Por que os tornados se concentram nessa faixa?

A geografia do Paraná atua como um facilitador climático. A Cordilheira dos Andes canaliza os ventos frios e secos que vêm do sul do continente. Ao mesmo tempo, os "rios voadores" trazem o calor e a altíssima umidade da Amazônia e da região do Chaco paraguaio rumo ao Sul do Brasil.

Quando esses dois extremos se encontram bem em cima do Paraná e de Santa Catarina, criam uma instabilidade atmosférica massiva com cisalhamento do vento (mudança abrupta de velocidade e direção com a altura), girando as nuvens e gerando os tornados.

Os tornados mais destrutivos já registrados na história do Brasil atingiram velocidades estimadas entre 220 km/h e 380 km/h. Como no Brasil não costuma haver sensores de vento (anemômetros) sobreviventes no trajeto exato de um tornado, os meteorologistas calculam a velocidade com base nos rastros de destruição deixados no solo utilizando a Escala Fujita (F0 a F5).

1. Tornado de Francisco Beltrão (PR) | Categoria F4, Velocidade estimada: Até 380 km/h.

  • O evento: Ocorrido em 13 de julho de 2015, é considerado um dos tornados mais violentos da história recente do país. Ele destruiu completamente dezenas de casas, arrancou árvores pela raiz, retorceu torres de alta tensão e deixou 19 feridos.

2. Tornado de Xanxerê (SC) | Categoria F3 (EF3), Velocidade estimada: Entre 250 km/h e 330 km/h.

  • O evento: Em 20 de abril de 2015, uma supercélula gerou um rastro devastador que cortou bairros inteiros da cidade catarinense. O vento colapsou o ginásio municipal, arrancou telhados de concreto, tombou caminhões e danificou mais de 2 mil residências, resultando em 4 mortes e prejuízos de R$ 250 milhões.

3. Tornado do Paraná (2026) | Categoria F3 (EF3), Velocidade estimada: Até 332 km/h.

  • O evento: Um caso recente ocorrido em agosto de 2026 afetou a zona rural do estado, gerando um rastro de destruição contínua ao longo de 17,3 quilômetros com ventos severos que destruíram tudo em seu caminho.

4. Tornado de Itu (SP) e Palmas (PR) | Categorias F3 a F4, Velocidade estimada: Acima de 250 km/h.

  • O impacto histórico: Em termos de letalidade, o tornado de Palmas (PR) em 1959 (estatisticamente o mais mortal, com dezenas de vítimas na zona rural) e o de Itu (SP) em 1991 (que deixou 15 mortos e milhares de desabrigados) causaram danos compatíveis com ventos dessa magnitude, arrancando construções inteiras do chão.

Tem-se notícia de tornados na Amazônia?

Sim, existem notícias e registros científicos de tornados na Amazônia, embora eles sejam considerados fenômenos raros e atípicos para a região.

Diferente do Sul do Brasil, onde os tornados ocorrem em terra firme e de forma devastadora devido ao choque com massas polares, na Região Amazônica o fenômeno se manifesta majoritariamente de duas maneiras específicas: trombas d'água sobre os grandes rios e tornados de menor intensidade (landspouts).

Embora muito mais difíceis de rastrear devido à densidade da floresta e vazios demográficos, tornados terrestres já causaram sustos reais no bioma amazônico.

A abordagem do poder público brasileiro funciona dentro de uma política geral de gestão de riscos e resposta a desastres climáticos genéricos (como temporais, vendavais e granizo) capitaneada pela Defesa Civil. Especialistas apontam que a infraestrutura urbana nacional ainda carece de preparo para eventos de ventos extremos.

Na imensa maioria das vezes, o sistema público avisa sobre "tempestades severas, granizo e vendavais" em vez de cravar a palavra "tornado". Isso ocorre porque os radares meteorológicos brasileiros ainda possuem limitações técnicas para rastrear a formação exata de microexplosões e tornados em tempo real de forma generalizada.

A principal força das políticas públicas brasileiras hoje é a resposta imediata ao rastro de destruição. Quando um tornado atinge uma cidade do Sul, o fluxo de socorro segue um padrão nacional determinado pela Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec).

Por Edson Silva, 29/9/2026

Fontes: Visão Geral criada por IA


sábado, 19 de setembro de 2026

A validação de um estudo no interior do Brasil – ciência tupiniquim.

A qualidade de vida humana passa pela “domesticação/controle” dos vetores de doenças.

“ciência tupiniquim" costuma ser usada no Brasil para falar da nossa produção científica nacional, muitas vezes misturando um orgulho pela nossa capacidade de inovar com um toque de ironia sobre a falta de recursos ou o isolamento que nossos pesquisadores enfrentam.

- Que impacto teve para a saúde pública do Brasil o estudo apresentado na UnB e no Congresso Brasileiro de Medicina Tropical, em Foz do Iguaçu, "reprodução do Aedes aegypti em fossas domésticas em Pimenta Bueno"?

O estudo realizado por Edson Silva, apresentado como dissertação de mestrado na Universidade de Brasília (UnB), teve um impacto profundo e disruptivo na saúde pública do Brasil ao quebrar um dos maiores dogmas científicos sobre o controle vetorial no país: a ideia de que o Aedes aegypti se reproduzia exclusivamente em água limpa e parada.

Ao mapear e comprovar a reprodução do mosquito em fossas de esgotamento sanitário na zona urbana de Pimenta Bueno (Rondônia), o trabalho acendeu um alerta nacional e transformou as estratégias de combate às arboviroses (como Dengue, Zika e Chikungunya).

Imagem criada por IA

O impacto prático e científico dessa pesquisa estruturou-se em três pilares principais:

1. Mudança de Dogma e Atualização de Manuais de Saúde

Até a ampla divulgação dessa descoberta, as campanhas e os agentes de combate a endemias focavam quase que totalmente em calhas, pneus, vasos de plantas e caixas d'água destampadas. A confirmação de que o mosquito havia se adaptado e passado a utilizar matéria orgânica em decomposição (água suja e esgoto) para depositar seus ovos obrigou o Ministério da Saúde a revisar seus boletins e manuais técnicos de vigilância entomológica.

2. Redefinição das Ações dos Agentes de Endemias

A partir da constatação do estudo em Pimenta Bueno, as fossas e ralos de escoamento doméstico entraram oficialmente no radar de monitoramento das equipes de saúde. Os impactos diretos no manejo ambiental incluíram:

  • Novos protocolos de inspeção: Inclusão obrigatória da verificação e vedação de fossas sépticas e negras.
  • Uso direcionado de larvicidas: Aplicação de pastilhas e soluções químicas específicas para criadouros subterrâneos de difícil acesso.
  • Adaptação de telas: Incentivo ao telamento de tubos de ventilação de fossas para impedir a entrada e saída das fêmeas adultas.

3. Fortalecimento do Elo entre Saneamento Básico e Epidemiologia

O estudo evidenciou que a ausência de redes coletoras de esgoto adequadas não era apenas um problema de infraestrutura, mas um multiplicador direto das epidemias de dengue na região amazônica e no Brasil. A pesquisa forneceu subsídios científicos robustos para demonstrar que o investimento em saneamento básico é indissociável das políticas de saúde pública e sustentabilidade.

- Qual o alcance internacional desse novo achado?

O alcance internacional das descobertas iniciadas em Pimenta Bueno e consolidadas por pesquisas subsequentes foi imenso, pois validou globalmente a tese da plasticidade ecológica e adaptativa do Aedes aegypti. O estudo brasileiro somou-se a um esforço científico mundial que forçou uma mudança profunda na epidemiologia global de controle de arboviroses.

Os principais reflexos desse achado no cenário internacional incluem:

1. Alinhamento com Estudos Globais e Alerta da OMS

A constatação de que o mosquito se reproduzia em fossas sépticas e esgoto doméstico conversou diretamente com pesquisas paralelas conduzidas em locais como Porto Rico (onde estudos da mesma época demonstraram uma produtividade massiva de Aedes nesses criadouros subterrâneos), Nigéria e Austrália. Juntos, esses dados obrigaram a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) a reconhecerem formalmente que o vetor não estava mais restrito a "águas limpas e limpas recipientes".

2. Mudança nos Manuais do CDC e do ECDC

Órgãos de excelência internacional em saúde, como o CDC (Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA) e o ECDC (Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças), passaram a incluir as fossas sépticas (septic tanks) e sistemas subterrâneos de escoamento em seus infográficos e factsheets de monitoramento como criadouros altamente produtivos e perigosos.

3. Embasamento para Estudos de Mutação e Toxicologia

Pesquisas publicadas posteriormente em periódicos de prestígio internacional, como a Nature, utilizaram o cenário de adaptação do mosquito a esgotos brutos para investigar como as larvas de Aedes conseguem sobreviver a altas concentrações de amônia e compostos nitrogenados (comumente tóxicos para a maioria dos animais) e como isso influencia a transmissão viral (incluindo o vírus Zika).

4. Vigilância em Países de Clima Temperado

Com as mudanças climáticas expandindo o território do mosquito para a Europa e o Norte Global, o conhecimento de que o Aedes busca refúgios subterrâneos ricos em matéria orgânica tornou-se crucial. Recentemente, com os primeiros registros de reprodução do Aedes aegypti em Londres (Reino Unido), o entendimento epidemiológico internacional baseia-se fortemente nessa capacidade do mosquito de se adaptar a microclimas urbanos e criadouros alternativos para driblar condições adversas.

- Em que ano foram apresentados esses estudos entomológicos?

O estudo pioneiro de Edson Silva na Universidade de Brasília (UnB) foi defendido como dissertação de mestrado em 2007. Posteriormente, a pesquisa foi apresentada no cenário científico nacional durante o 46º Congresso Brasileiro de Medicina Tropical, realizado no ano de 2010, em Foz do Iguaçu.

Paralelamente ao cenário brasileiro, outros países da América Latina também identificaram e adaptaram suas estratégias a essa nova realidade com base em pesquisas cruciais da mesma época:

O caso de Porto Rico e os Anos de Publicação

O estudo mais emblemático sobre o tema fora do Brasil foi liderado pelo renomado entomologista Dr. Roberto Barrera, chefe da divisão de Dengue do CDC (Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA) em San Juan, Porto Rico.

Os estudos porto-riquenhos foram publicados sequencialmente:

  • 2008: O CDC publicou a primeira descoberta massiva no periódico Medical and Veterinary Entomology, intitulada "Unusual productivity of Aedes aegypti in septic tanks and its implications for dengue control", detalhando como as fossas subterrâneas estavam burlando as ações tradicionais de saúde.
  • 2009 / 2010: Foram publicados os desdobramentos de campo mostrando a dinâmica anual do mosquito (provando que as fossas mantinham o vetor ativo mesmo nas secas) e as especificidades químicas da água poluída.

Como a América Latina adaptou suas estratégias

A partir dos dados combinados de Brasil e Porto Rico apresentados entre 2007 e 2010, os programas de saúde pública do continente mudaram radicalmente a abordagem de controle vetorial:

País / Região

Adaptação Prática de Estratégia baseada nos achados

Porto Rico & Caribe

Criação e distribuição em larga escala das Armadilhas AGO (Autocidal Gravid Ovitrap) pelo CDC. Elas mimetizam o odor e a escuridão de uma fossa séptica, capturando a fêmea grávida antes da postura. Houve também forte financiamento para telamento físico obrigatório de tubos de respiro em comunidades rurais.

Colômbia & América Central

Lançamento de campanhas focadas em "Criadouros Criptas" (Invisíveis). O foco em coletar lixo reciclável nos quintais dividiu espaço com o mapeamento e tratamento de caixas de inspeção de esgoto e bueiros de águas pluviais poluídas.

Zonas Urbanas do México

Reajuste de protocolos de inseticidas de ultra-baixo volume (fumacê) urbanos. Como o spray tradicional de superfície não penetrava no sistema subterrâneo, o foco passou a incluir o tratamento focal e biológico das vias de drenagem doméstica.

Equador & Peru

Integração intersetorial imediata dos comitês de saúde com os ministérios de habitação e saneamento, determinando que o controle de epidemias não se resolveria com larvicidas, mas sim com a substituição acelerada de fossas por sistemas de esgotamento sanitário fechados.

- Que sugestões Edson Silva propôs em seu estudo, no ano de 2007, para o controle do cullicideo na fossa doméstica?

Em sua dissertação de mestrado defendida na UnB em 2007 (e posteriormente apresentada no Congresso Brasileiro de Medicina Tropical), o pesquisador Edson Silva propôs um conjunto de medidas integradas voltadas para o manejo ambiental e mecânico para conter a reprodução do Aedes aegypti nas fossas domésticas de Pimenta Bueno.

Como o foco tradicional da época ignorava o subsolo, as sugestões do autor focaram em neutralizar o acesso do mosquito e corrigir as falhas estruturais do saneamento básico local:

1. Vedação Mecânica Hermética das Tampas

O estudo constatou que a maioria das fossas possuía rachaduras, frestas ou tampas mal encaixadas que serviam como portas de entrada para as fêmeas do colicídeo. A principal sugestão imediata foi o selamento obrigatório com cimento, argamassa ou borrachas de vedação em qualquer abertura das tampas de concreto das fossas sépticas e fossas negras.

2. Telamento dos Tubos de Ventilação

Muitas fossas de Pimenta Bueno possuíam canos de respiração abertos para a liberação de gases. Edson Silva propôs a instalação de telas metálicas ou plásticas de malha milimétrica (fina) na extremidade superior desses tubos. Isso garantia a saída dos gases do esgoto, mas criava uma barreira física intransponível, impedindo que o mosquito entrasse para desovar ou que os novos adultos gerados lá dentro escapassem para a superfície.

3. Reformulação dos Protocolos de Inspeção dos Agentes de Endemias

O autor defendeu que as visitas domiciliares oficiais do Programa Nacional de Controle da Dengue (PNCD) mudassem de escopo. Ele sugeriu a inclusão obrigatória da vistoria do quintal subterrâneo, instruindo os agentes de saúde a abrir o solo (quando necessário), inspecionar a integridade das fossas domésticas e aplicar larvicidas diretamente nesses locais onde a vedação física completa não fosse possível de imediato.

4. Investimento Estrutural em Redes Coletoras de Esgoto

Indo além do paliativo doméstico, o estudo utilizou os dados de Pimenta Bueno para propor que a solução definitiva contra esse novo comportamento do vetor dependia de políticas públicas de saneamento básico. Silva sugeriu a substituição gradativa do sistema de fossas individuais por uma rede de esgotamento sanitário conectada a estações de tratamento, eliminando a raiz do problema: a permanência de águas residuárias poluídas e confinadas nos quintais das residências.

- Como outros países da América Latina (como Porto Rico) adaptaram suas estratégias baseados na temática científica?

A mudança paradigmática iniciada com os achados de Pimenta Bueno ecoou fortemente por toda a América Latina e pelo Caribe, regiões que compartilham desafios severos de saneamento básico e alta incidência de arboviroses. O caso de Porto Rico tornou-se um dos mais emblemáticos no redesenho de estratégias epidemiológicas na região.

Ao compreenderem que o mosquito utilizava ambientes subterrâneos ricos em matéria orgânica, Porto Rico e outros países latino-americanos adaptaram suas estratégias com base em quatro eixos principais:

1. Mudança de Foco Estatístico e "Criadouros Invisíveis"

Em Porto Rico, pesquisas coordenadas por especialistas como Dr. Roberto Barrera (vinculado ao braço de Dengue do CDC local) investigaram a fundo o ecossistema das fossas sépticas urbanas e suburbanas. Os cientistas descobriram dados alarmantes: uma única fossa séptica sem vedação adequada era capaz de produzir mais de 1.500 mosquitos Aedes aegypti adultos por dia.
Mais impressionante ainda: a produção diária de mosquitos nessas fossas chegava a ser de 3 a 9 vezes maior do que em todos os recipientes de superfície somados (como vasos e pneus). Isso forçou o redesenho dos índices de infestação predial, que antes ignoravam o subsolo.

2. Ações de Bloqueio Físico e Telamento Massivo

A estratégia mais imediata adotada em Porto Rico, através de parcerias com a Unidade de Controle de Vetores de Porto Rico e o CDC, foi focar no reparo e vedação mecânica. As campanhas comunitárias deixaram de focar apenas no "vire o balde" e passaram a instruir a população a:

  • Instalar telas de malha fina nos tubos de ventilação das fossas domésticas, impedindo o fluxo de entrada e saída dos mosquitos.
  • Utilizar cimento ou borrachas de vedação para fechar rachaduras nas tampas e paredes das fossas.

3. Técnicas de Controle Químico e Biológico Subterrâneo

Como as fossas acumulam água continuamente — independentemente do regime de chuvas —, os métodos tradicionais de borrifação de inseticida comum de superfície se mostravam ineficazes. Porto Rico e outros países da América Central passaram a adotar:

  • Larvicidas de Ação Residual Espaciais (como o Temephos): Aplicados diretamente nas fossas para garantir o extermínio das larvas em água poluída.
  • Armadilhas de Gravidez Autocidas (AGO traps): Desenvolvidas pelo CDC em Porto Rico, essas armadilhas mimetizam as condições escuras e os odores orgânicos que atraem as fêmeas grávidas, capturando-as antes que depositem seus ovos nas fossas.
  • Copépodes em bueiros e redes de drenagem: Introdução de pequenos crustáceos predadores de larvas em estruturas de drenagem pluvial subterrâneas que também acumulavam matéria orgânica.

4. Rompimento da Sazonalidade nos Planos de Saúde Pública

Antes desses estudos, os governos latino-americanos intensificavam o combate ao mosquito apenas nas estações chuvosas. A descoberta de Porto Rico e do Brasil provou que as fossas funcionavam como "santuários permanentes". Como o esgoto doméstico mantém a água constante o ano inteiro, o mosquito conseguia sobreviver e se multiplicar mesmo em períodos de seca severa. As estratégias de vigilância epidemiológica na América Latina passaram, então, a ser contínuas e ininterruptas, combatendo os focos subterrâneos de janeiro a janeiro.

19 de setembro de 2026.

Por Edson Silva

       Elissa Gonçalves de Oliveira e Silva

Fontes

Visão Geral criada por IA

terça-feira, 8 de setembro de 2026

Café Robusta da Amazônia, uma joia gastronômica no interior da floresta

Café e Rondônia – a riqueza de um povo

O hábito de tomar café como bebida prazerosa em caráter doméstico ou em recintos coletivos se popularizou a partir de 1450. Ele era muito comum entre os filósofos que, ao tomá-lo, permaneciam acordados para a prática de exercícios espirituais. Poucos anos depois, a Turquia foi responsável em difundir o “hábito do café”, transformando-o em ritual de sociabilidade. O país foi palco do primeiro café do mundo – o Kiva Han – por volta de 1475. Desde então, tomar café passou a ser “um rito” que se propagou mundo afora. Em 1574, os cafés do Cairo e de Meca eram locais procurados, sobretudo, por artistas e poetas.

Origem

Os Etíopes, alimentavam-se de sua polpa doce, macerada ou a misturavam em banha nas refeições. Suas folhas também eram mastigadas ou utilizadas no preparo de chá. Produziam também um suco fermentado que se transformava em bebida alcoólica.

Os árabes dominaram rapidamente a técnica de plantio e preparação do café. Registros históricos de 575 d.C indicam o Iêmen (atual Sudoeste da Ásia) como a primeira região a receber as sementes. Seus habitantes faziam infusão com o café e cerejas fervidas em água, geralmente, para fins medicinais. Naquela altura, monges começavam a utilizar o café como bebida excitante para ajudá-los nas rezas e vigílias noturnas.

O processo de torrefação foi outro passo importante para a popularização do café no mundo, mas só foi desenvolvido no Séc. XIV quando a bebida adquiriu forma e gosto como conhecemos hoje. A etapa seguinte foi a produção comercial no Iêmen. O país manteve o monopólio de sua comercialização por um bom tempo. O crescente interesse pela bebida permitiu sua “globalização” e facilitou a intervenção cultural tanto nas formas de consumo quanto nas técnicas de plantio.

Expansão pelo Mundo

  • Iêmen: O cultivo comercial inicial e o preparo dos grãos torrados começaram nos séculos XIV e XV na Península Arábica, especificamente no Iêmen.
  • Europa e Holanda: No século XVII, os holandeses conseguiram retirar mudas da região de Mocha e cultivá-las na Europa.
  • Chegada ao Brasil: O café chegou ao Brasil em 1727, trazido da Guiana Francesa por Francisco de Melo Palheta, adaptando-se perfeitamente ao clima do país

Tipos de café

Podemos levantar essa tipologia sob o prisma em 3 abordagens: pelas espécies de grãos, pelas categorias de qualidade comercializadas ou pelas bebidas tradicionais servidas na xícara.

1. Espécies de Grãos (A Base de Tudo)

Embora existam mais de 120 espécies de café no mundo, apenas duas dominam o mercado global:

  • Café Arábica (Coffea arabica): Representa a maior parte da produção mundial. É cultivado em altitudes mais elevadas e entrega uma bebida mais suave, aromática, doce e com acidez agradável. Possui menos cafeína e é a base dos cafés finos e especiais. Algumas de suas variedades famosas são o Bourbon, Catuaí e Mundo Novo.
  • Café Robusta ou Conilon (Coffea canephora): É uma planta muito mais resistente a pragas e ao calor. Produz um café mais encorpado, com amargor marcante e quase o dobro de cafeína do arábica. É muito utilizado na produção de café solúvel e em misturas (blends).

2. Categorias de Qualidade (O que você encontra no mercado)

No Brasil, a Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC) e a Metodologia SCA classificam o café comercializado por níveis de pureza e sabor:

Categoria

Tipo de Grão

Perfil de Sabor

Tradicional/

Extraforte

Geralmente um blend com

bastante Robusta/Conilon.

Sabor muito forte, amargo e com torra

muito escura para uniformizar os grãos.

Superior

Arábica selecionado ou

blends de melhor qualidade.

Sabor mais equilibrado, suave, com

notas sutis de chocolate ou amêndoas.

Gourmet

100% Arábica de alta qualidade.

Excelente aroma, acidez equilibrada e

doçura natural mais perceptível.

Especial

100% Arábica rastreável

(com pontuação SCA acima de 80).

Bebida complexa, com notas florais,

frutadas ou exóticas. Sem defeitos.

3. Tipos de Bebidas (Como é servido)

Se a sua dúvida for sobre as receitas clássicas das cafeterias, as principais opções são:

  • Espresso: Café puro e altamente concentrado, extraído sob alta pressão. É a base para a maioria das outras bebidas.
  • Caffè Latte (ou Café com Leite): Uma dose de espresso combinada com uma grande quantidade de leite vaporizado e uma fina camada de espuma.
  • Cappuccino: Combinação italiana clássica em partes iguais de café espresso, leite vaporizado e espuma de leite densa.
  • Macchiato: Um café espresso "manchado" apenas com uma colherada de espuma de leite por cima.
  • Mocha (ou Mocaccino): Uma bebida mais adocicada que leva calda de chocolate no fundo, espresso e leite vaporizado.
  • Americano: O espresso tradicional diluído em água quente, ideal para quem prefere uma bebida mais suave e menos densa.

Os dados oficiais do USDA (Departamento de Agricultura dos EUA) apontam o Brasil como o líder absoluto, produzindo sozinho cerca de 35% do total mundial.

Juntos, os 5 maiores produtores concentram quase 75% de todo o café do planeta.

Os 5 Maiores Países Produtores de Café

  • 1º Brasil - (~63 milhões de sacas): Lidera com folga o mercado global e é o maior produtor de café Arábica, além de ter forte produção de Conilon (Robusta).
  • 2º Vietnã - (~31 milhões de sacas): Segunda maior potência global e o rei indiscutível do café Robusta. Sua produção abastece amplamente a indústria de cafés solúveis.
  • 3º Colômbia - (~13,5 milhões de sacas): Famosa mundialmente por produzir exclusivamente café Arábica de alta qualidade, cultivado em regiões montanhosas e colhido manualmente.
  • 4º Indonésia - (~12 milhões de sacas): Produz majoritariamente a variedade Robusta, mas também é reconhecida por seus arábicas encorpados e exóticos originados em suas diversas ilhas.
  • 5º Etiópia - (~11,5 milhões de sacas): O berço histórico do café. Produz 100% Arábica de perfil altamente complexo, floral e frutado.

As duas Espécies que dominam o Mercado Mundial

Como vimos anteriormente, o mercado é inteiramente dominado por duas espécies do gênero Coffea, dividindo-se da seguinte forma:

  • Café Arábica (Coffea arabica): Representa cerca de 60% da produção global. É valorizado pelo mercado de cafés finos, gourmet e especiais por sua doçura natural, acidez equilibrada e grande complexidade de aromas.
  • Café Robusta / Conilon (Coffea canephora): Responde por cerca de 40% do mercado mundial. É uma planta mais resistente a pragas e ao calor, que resulta em grãos com o dobro de cafeína, sabor mais encorpado, denso e amargo.

Produção por Espécie no Brasil

O Brasil se diferencia das demais potências agrícolas por ser o único grande produtor a manter altíssima competitividade em ambos os cultivos:

  • Café Arábica (~67% da produção): É a variedade dominante no país, com expectativa de colheita girando em torno de 44,4 a 51,8 milhões de sacas. Grande parte do cultivo está concentrado em regiões de maior altitude e clima ameno no Sudeste.
  • Café Robusta/Conilon (~33% da produção): Apresenta forte evolução técnica e responde por cerca de 21,6 a 25,4 milhões de sacas. É produzido em faixas mais quentes e litorâneas ou na região Norte.

Os cinco Primeiros Estados Produtores

A produção nacional é altamente concentrada, com os três primeiros estados da lista respondendo por mais de 80% do café colhido no país.

Posição

Estado

Características da Produção

1º

Minas Gerais

Líder absoluto, responsável por cerca de 50% da produção nacional. Seu foco é quase 100% voltado para o café Arábica, destacando-se regiões como o Sul de Minas, Cerrado Mineiro e Matas de Minas.

2º

Espírito Santo

O maior produtor de café Conilon (Robusta) do Brasil, embora também venha crescendo na produção de Arábicas finos em suas regiões montanhosas.

3º

São Paulo

Produção tradicional e focada de forma exclusiva no café Arábica, com forte destaque para as regiões da Alta Mogiana e de Franca.

4º

Bahia

Apresenta alta produtividade e um perfil misto: produz Arábica de altíssima qualidade (na Chapada Diamantina) e Conilon irrigado no extremo sul do estado.

5º

Rondônia

O principal polo produtor de café da Região Norte, com foco total no Robustas Amazônicos (cafés da espécie canéfora com manejo sustentável e alta qualidade).

Na produção nacional de cafés da espécie canéfora (Robusta e Conilon), o Espírito Santo e Rondônia são as duas maiores potências do Brasil.

De acordo com os dados oficiais consolidados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), as projeções de colheita desenham o seguinte cenário numérico:

1º Espírito Santo (O Líder Nacional)

O estado capixaba é o maior produtor de Conilon do país, concentrando quase 70% de toda a produção nacional dessa variedade.

  • Volume estimado: Entre 14,8 e 14,9 milhões de sacas de 60 kg.
  • Produtividade média: Cerca de 47,9 sacas por hectare.
  • Destaque: Embora o número oficial da Conab aponte um volume alto, cooperativas locais como a Cooabriel relatam que o clima quente provocou quebras localizadas na colheita final em algumas fazendas do norte do estado.

2º Rondônia (O Vice-Líder e Destaque em Produtividade)

Rondônia cultiva exclusivamente a variedade Robusta/Conilon (com grande foco nos chamados "Robustas Amazônicos" de alta qualidade). O estado consolida-se como o segundo maior produtor da espécie e o quinto maior produtor de café no ranking geral.

  • Volume estimado: Cerca de 2,7 milhões de sacas de 60 kg (representando um crescimento expressivo de mais de 18% em relação ao ciclo anterior).
  • Produtividade média: Atingiu a marca histórica de 63,6 sacas por hectare, consolidando a maior produtividade de café por área do Brasil.
  • Destaque: Esse desempenho recorde ocorre porque quase todas as lavouras rondonienses utilizam tecnologia avançada de irrigação por gotejamento, protegendo o cafezal das variações extremas de seca e calor.

Resumo da disputa Robusta/Conilon:

  • Espírito Santo: ~14,8 milhões de sacas ☕
  • Rondônia: ~2,7 milhões de sacas ☕

Qual a área em hectares utilizada para a cultura em RO e ES

  • Espírito Santo (ES): Detém a maior área plantada de café conilon do país, cobrindo cerca de 286,7 mil hectares. Desse total, cerca de 258,2 mil hectares estão em produção efetiva, e o restante em fase de formação (novas lavouras que ainda vão começar a dar frutos).
  • Rondônia (RO): Apresenta uma área muito mais compacta e otimizada, totalizando aproximadamente 47,8 mil hectares cultivados.

Foto gerada por IA

Comparação Direta: Área vs. Produtividade

Embora o Espírito Santo utilize uma área quase 6 vezes maior que a de Rondônia, o estado nortista compensa a menor extensão territorial com o uso intensivo de irrigação por gotejamento e técnicas de clonagem. Isso permite que Rondônia produza mais sacas por espaço de terra (maior produtividade por hectare do país).

Estado

Área Total Cultivada

Área em Produção Efetiva

Foco da Cultura

Espírito Santo

~286.700 hectares

~258.200 hectares

Conilon Tradicional e Finos

Rondônia

~47.800 hectares

~42.400 hectares

Robustas Amazônicos

Primeiros exemplares em cada estado

Espírito Santo (1815 e 1912)

  • O café em geral (Arábica): Os primeiros pés de café chegaram ao Espírito Santo por volta de 1815, trazidos do Rio de Janeiro e plantados inicialmente na região de Santa Leopoldina.
  • A variedade Conilon (Robusta): As primeiras mudas e sementes específicas de café Conilon (Coffea canephora) foram introduzidas no estado em 1912. O plantio começou a ganhar força comercial no município de Cachoeira de Itapemirim e expandiu-se massivamente a partir da década de 1960, após uma grande crise de erradicação das lavouras de Arábica.

Rondônia (1967 e década de 1970)

  • O pioneirismo (Arábica): Os primeiros exemplares de café foram plantados em solo rondoniense em 1967, no seringal que daria origem ao município de Cacoal. O pioneiro Clodoaldo Nunes de Almeida trouxe um saco de sementes da variedade Arábica de Mato Grosso e colheu a primeira safra em 1969.
  • A chegada do Robusta: Na década de 1970, com os projetos oficiais de colonização do Governo Federal, migrantes vindos do próprio Espírito Santo, Paraná e Minas Gerais trouxeram as primeiras sementes de Canéfora (Conilon/Robusta). Como o Arábica sofria com o clima quente e de baixa altitude, a variedade robusta se adaptou perfeitamente, tornando-se a base dos "Robustas Amazônicos" de hoje.

Ambiente amazônico no bioma rondoniense

·         Rios Voadores e Clima: A imensa umidade regulada pela floresta e as chuvas constantes criam um microclima ideal de baixa altitude e calor contínuo. Isso faz com que a planta se desenvolva com vigor máximo, acelerando o metabolismo e resultando em safras altamente produtivas.

·         Solo e Nutrição: O solo amazônico, aliado ao manejo tecnológico e sustentável (como a adubação precisa), ajuda a planta a sintetizar açúcares e ácidos orgânicos complexos.

·         O verdadeiro impacto no sabor: Em vez de aumentar a cafeína (que traria mais amargor), esse terroir amazônico — combinado com a colheita seleta de grãos maduros — ajuda a reduzir a adstringência e o amargor tradicional do Robusta, fazendo brotar notas raras de chocolate, especiarias e frutas.

Grãos finos premiados internacionalmente

A transformação dos primeiros grãos trazidos na década de 1970 em Robustas Amazônicos finos — hoje celebrados no topo da cafeicultura mundial — é uma das jornadas mais impressionantes do agronegócio moderno. O grão canéfora, historicamente rejeitado por especialistas e usado apenas para baratear mesclas industriais, passou por uma revolução amparada em três pilares principais:

1. O Casamento Genético Ideal (Anos 1990)

Nos anos 1970, os cafezais rondonienses eram formados por sementes mistas de Conilon e Arábica, que sofriam com a ferrugem e o clima instável. Na década de 1990, a Embrapa Rondônia, em parceria com institutos de pesquisa, introduziu materiais genéticos de plantas 100% Robusta, vindas do Instituto Agronômico de Campinas (IAC).

O cruzamento natural dessas variedades ao longo de 30 anos no solo da Amazônia criou um híbrido exclusivo de Canéfora, adaptado ao calor e naturalmente resistente, unindo o corpo do Robusta à doçura e rusticidade locais.

2. A Revolução do Manejo e os "Cafés Clonais"

A grande virada de qualidade aconteceu quando os agricultores abandonaram o plantio por sementes tradicionais e adotaram a cafeicultura clonal.

  • Clonagem de plantas de elite: Selecionam-se as plantas mais produtivas e resistentes para gerar mudas idênticas.
  • Pós-colheita cirúrgica: Antigamente, os grãos eram colhidos misturando frutos verdes e maduros. Os produtores aprenderam a colher apenas os grãos em estágio "cereja" (perfeitamente maduros), investindo em terreiros suspensos e processos de fermentação induzida.
  • Mudança Sensorial: O amargor excessivo deu lugar a uma diversidade aromática rica em notas de chocolate, mel, castanhas, especiarias e frutas tropicais.

3. O Batismo e a Consagração Internacional

Em 2016, a Embrapa cunhou oficialmente o termo "Robusta Amazônico". A partir dali o mercado começou a olhar para Rondônia não como fornecedor de café barato, mas como origem de uma joia gastronômica.

O reconhecimento internacional consolidou-se através de feitos históricos:

  • Denominação de Origem (D.O.) Matas de Rondônia: Tornou-se a primeira região de cafés canéforas sustentáveis do mundo a receber esse selo de Indicação Geográfica. O selo comprova que aquele café carrega o terroir único e a preservação da floresta viva.
  • Domínio em Concursos Culturais: Marcas rondonienses passaram a colecionar vitórias na Semana Internacional do Café (SIC). Produtoras locais ganharam o topo de concursos de prestígio como o Florada Premiada, atingindo notas de excelência acima de 90 pontos.
  • A Nota Máxima (Tribos): Em uma consagração absoluta da cafeicultura indígena, o produtor Rafael Suruí, das Matas de Rondônia, alcançou a nota histórica perfeita de 100 pontos com um café cultivado de forma 100% sustentável na floresta, atraindo olhares de especialistas globais.

08 de setembro de 2026.

Por Edson Silva

Fontes

https://www.abic.com.br/tudo-de-cafe/origem-do-cafe/

USDA (Departamento de Agricultura dos EUA)

Companhia Nacional de Abastecimento (Conab)

Visão Geral criada por IA